terça-feira, abril 10, 2007

Experiência de Criança

Acho que muitos já conhecem essa crônica, mas eu gosto tanto dela que resolvi postar aqui também!! Aproveitem!!

Moro em Brasília desde que nasci. Mas cometi alguns erros nessa minha vida inteira de capital federal. Por exemplo: só conheci a catedral e o museu JK quando uma amiga de Belo Horizonte me visitou em 1998, eu já tinha 17 anos. Um passeio pela esplanada, com direito a fotos felizes e pontos turísticos, fiz quando estava na faculdade só porque tinha de fazer um trabalho acadêmico. Essas coisas são importantes, são necessárias na vida de uma criança brasiliense. Muito menos fui ao desfile de 07 de setembro, homenagem à Pátria, multidão na Esplanada. Isso, eu nunca presenciei.

O bom foi que escolhi uma profissão que proporciona algumas coisas boas, outras nem tanto, mas algumas bem divertidas. A notícia da pauta não foi nada agradável. Veio na véspera do feriado de 07 de setembro, às 22h30. Hora nada agradável também, para quem saiu da redação alguns minutos antes. Quando a bina do celular denuncia telefone do trabalho é melhor atender logo, mesmo sabendo que a notícia não será muito boa. Do outro lado da linha vem a pauta: “Oi Lalá (meu carinhoso apelido), amanhã você chega um pouquinho mais cedo e vai com o fotógrafo para Esplanada cobrir o desfile de 07 de setembro, tá?!”. Eu como toda repórter sagaz disse logo: “Claro, eu já ia chegar mais cedo mesmo”. Logo que desliguei, pensei: “Putz, que fria essa!”.

Brasília, 07 de setembro de 2006. O dia começa nublado, logo penso: “Ah! Não vai ser tão ruim assim, nada de sol quente e calor insuportável”. Peguei meu bloquinho, duas canetas (vai que uma falha no meio da entrevista) e sai feliz e contente. Logo que avistei a Esplanada, vi uma multidão. Mais de 30 mil pessoas se aglomeraram em pequenos espaços para ver militares,civis e artistas passeando por uma rua estreita. Ufa! Para fugir daquele caos, conseguimos entrar numa área só para credenciados e não tínhamos nem idéia de que credencial era essa. Mas a vista era privilegiada e as fotos saíram maravilhosas.

Passei a observar as pessoas que estavam por lá. Aquelas que acordaram cedo, se arrumaram junto com a família e amigos e chegaram cedo, para conseguir um bom lugar e ver o desfile. Devo confessar que o desfile é de fato muito bonito. Em muitos momentos, me peguei com a boca aberta, besta com tamanha festa. Daí percebi que fez falta não participar dessa comemoração junto com a família.

Mas o melhor, de todo o dia, foi me flagrar olhando incansavelmente para o céu, rindo para pilotos que não me enxergavam no meio daquelas pessoas. Eu estava besta com a Esquadrilha da Fumaça, a atração mais esperada do desfile. Eram sete aviões que rasgavam as nuvens e soltavam fumaça para marcar seus caminhos. Um fazia piruetas que nunca imaginei que pudessem ser feitas. Eles passaram pertinho de mim. Faziam manobras que pra mim são altamente perigosas, mas lindas de se ver. Eles voavam de cabeça pra baixo. Incrível. Foram quinze minutos, apenas quinze minutos. E eu parecia uma criança, sem desgrudar o olho do céu e numa expectativa de dar frio na barriga, esperando pela próxima peripécia no ar.

Bati palmas freneticamente. Sorri de dar dor na boca. Esqueci do sol me queimando. Perdi-me do fotógrafo que foi buscar o melhor ângulo. Deixei de observar as pessoas em volta. Vi um coração de fumaça se formar no céu. Eu adoro corações. Prestei atenção em todas as manobras. Todas mesmo. Adorei as piruetas. Tive medo, em algumas, eles pareciam despencar do alto. Vibrei quando percebi que eles não iriam cair e estavam apenas fazendo mais gracinhas. Larguei a minha pauta e voltei a ser criança, por quinze maravilhosos minutos.
Foto: Nilson Carvalho

Um comentário:

Anônimo disse...

Tá vendo como eu tenho razão: Apenas adultos muito sensíveis e iluminados têm o dom de conseguir ver o mundo como uma criança!
Beijos, Ana Paula