quinta-feira, outubro 09, 2008

Quanto tempo tenho?

“Não tenha pressa.
Mas não perca tempo.”
José Saramago


Um dia desses sentada na sala do chefe me dei conta de como o tempo passou. Assim mesmo de repente ele passou. De repente, não mais que de repente ele passou e eu me vi ali, sentada em um sofá desconfortável na sala do meu enésimo chefe, aos 26 anos, formada e sem alguma perspectiva de vida. Será mesmo que não há perspectivas?

Uma vez um professor meu (nem me lembro o nome) disse uma coisa interessante, mas na época de adolescente típica não dei muita bola e ainda tive a coragem de pensar: Comigo não vai ser assim! Ele falou da mania de criarmos expectativas do que está por vir e com isso não aproveitamos o que está acontecendo. Depositamos toda a nossa fútil esperança de que essas coisas no futuro irão mudar a nossa vida. Para ele, nosso pensamento funciona mais ou menos assim: Quando eu terminar a escola tudo vai ser diferente. Ah! Agora quando eu entrar na faculdade tudo vai mudar. Não, quando eu terminar a graduação a vida começa. Menina, quando eu começar a trabalhar, as coisas serão diferentes. Tenho certeza de que quando casar, estarei completamente mudada. E por aí vai.

Mas quando ouvi isso eu era de fato uma adolescente típica querendo abraçar o mundo com as pernas e as achava enormes o suficiente para fazer isso com toda facilidade de uma vida. E não me dei conta de que realmente pensamos assim. E de repente, não mais que de repente percebe que o tempo passou. As coisas mudaram e você parece ser a mesma adolescente típica com cara de choro quando alguma coisa não dá certo.

Vocês já se deram conta de que o tempo passou? Mas não daquele jeito óbvio que temos mania de pensar. Ele de fato passou e estou com 26 anos, sentada na sala do meu enésimo chefe, sem saber se caso ou se compro uma bicicleta, se cago ou se saio da moita, se vou para Salvador ou Buenos Aires no próximo carnaval (essa dúvida é bastante pertinente). E acreditando ainda que as coisas vão mudar e aí sim serei diferente, mais feliz quem sabe.

Depois de levantar do sofá desconfortável e dar uma trégua ao pobre derrière, me dei conta de uma coisa. Eu segui o conselho daquele pobre professor, daquele mesmo sem nome e sem rosto em minha memória. Opa. Nem falei qual era o conselho, não é mesmo?! “Aproveitem agora, aproveitem tudo que precisam antes de se depararem com o tempo perdido e não vivido. Aproveitem para fazer o que gostam e não percam tempo esperando que algo de extraordinário possa acontecer”.

As mudanças foram tão boas que não foram sentidas nem sofridas. Não sei se concordam, mas mudanças são sempre desagradáveis. Analisei e vi que a vida foi gente boa comigo. Eu vivi cada momento. Aproveitei cada fase. Fui criança quando era criança, adolescente chata quando precisei ser, adulta responsável e independente e também filha desamparada que precisa do colo da mamãe e do papai.

O tempo passou e me dei conta disso, afinal o corpinho não é mais o mesmo. Confesso: o tempo só me fez bem. Confesso: é legal criar expectativas, mas sem esquecer que precisamos agir agora para que o futuro seja mais divertido e diferente. Confesso: sou feliz por ter dúvidas se vou a Salvador ou Buenos Aires no próximo carnaval. Confesso: estar ali sentada na sala do meu enésimo chefe, amassando cada vez mais o pobre derrière, foi bom e necessário. Percebi que o tempo passou assim tão rápido, mas também percebi como aproveitei cada momento, cada amor, cada sofrimento, cada angústia, cada dúvida, cada momento que acreditei ser o mais feliz da minha vida. Tudo isso é muito saudável.

Agora só preciso me preocupar apenas em usar creme antiidade nas mãos, afinal não há botox para elas. Usar protetor solar todos os dias e malhar horrores. Por quê? Porque por mais que o tempo seja legal por ter passado, ele traz sérias conseqüências ao “corpitcho” que papai do céu mandou pra mim. Ah e o protetor solar é para evitar os precoces sinais de envelhecimento (Credo!!). Outra coisa, preciso também fazer muitos planos e ter muitas dúvidas, assim as mudanças passam mais suavemente.

“Tempo é um jeito de a natureza garantir que todas as coisas não aconteçam de uma só vez”
Woody Allen


“Dizem que o tempo muda as coisas, mas, na verdade, é você mesmo que tem de mudá-las”
Andy Warhol

2 comentários:

Unknown disse...

"O tempo passou e me dei conta disso, afinal o corpinho não é mais o mesmo. Confesso: o tempo só me fez bem."
Vou te falar uma coisa: você está cada vez mais pretensiosa... Tudo bem que uma coisas melhoraram, mas lembresse que outras deram uma diminuída de proporções, se é que você me entende.
Com relação ao mérito de teu post, confesso que tenho vivido constantemente esta sensação. Você sabe que tenho uma ampla corrente de amigos (Preto) que acham que eu estou virando viado, que só faço trabalhar, mas ninguém nunca se preocupa em saber como realmente estamos, se estamos fazendo o que queremos ou o que podemos), enfim, somente julgam de forma irrecorrível que estamos desperdiçando nossas simples e magras existências.
Porém, digo-te: NÃO! Estamos simplesmente fazendo o melhor possível, sempre tentando retirar de nossas faces o véu da ignorância, tal qual você demonstrou fazer no seu post.
Por fim, peço que não maltrate mais sua "derrière", pois não se sabe nosso dia de amanhã...
Beijos grandes e generosos.

Unknown disse...

No meu comentário acima, eu escrevi logo no começo "lembresse", sendo que o correto é "lembre-se".
Me confundi.... ihihihihih
Beijo