quinta-feira, abril 15, 2010

O senhor, ela, a bicicletinha e a calcinha

“Ela sai de saia e bicicletinha, uma mão vai no guidom e a outra tapando a calcinha (sic)”. Essa é clássica e faz parte da trilha sonora das minhas manhãs. Não porque ligo o som no último volume às 6h da matina. Isso mesmo, às 6h, meu yorkshire Fidel precisa passear cedo e aliviar o acumulado durante a noite. Escuto sem querer, todas as manhãs. Já virou rotina. Um dia desses até me peguei sentindo falta da trilha sonora matinal, com repertório rebuscado, sofisticado e digamos clássico.

As músicas não são trilha sonora do meu passeio logo cedo, seria muita pretensão achar que a canção toca para eu passar. Na verdade, eu o vejo todos os dias com o semblante mais bonito que já vi em uma pessoa idosa. Isso mesmo ele tem mais de 70, ou será 80? É o senhor. Mas não parece, acreditem! Ele acorda às 6h da manhã disposto e liga o som com as melhores músicas, dignas de rádio brega, para embalar e animar as manhãs DELA. ELA gosta. E ELA? Ah! Ela não passa dos 40. Talvez seja mais nova, mas carrega no rosto as marcas de uma vida não muito fácil.

Dá gosto de ver a animação. ELA acorda logo depois dele, acredito que o despertador seja o rádio de 1800. Ela levanta cantando e sorrindo. O que o deixa mais ainda abobado, com aquele semblante difícil de encontrar em idosos. Retifico, de encontrar nas pessoas.

Às vezes quando passo pela singela casinha, com adesivos das eleições de 2002, decorando a porta – “Lula para presidente” – ELA já está de pé, animadíssima, de banho tomado, de toalha na cabeça para proteger os finos cabelos curtos e pretos. Daqueles nada lisos. Pendurando a preta, pequena e velha calcinha no varal improvisado, ao lado do depósito dos restos de material da reforma feita no prédio residencial. A qual a singela casinha não recebeu nenhum azulejo novo. É fácil perceber.

Outras tantas vezes, passo pela casinha e os vejo embalados e interessadíssimos em uma conversa impossível de escutar por causa da boa e mais nova música. Eu fiquei curiosa, queria mesmo saber o que tanto conversam e com tanta atenção, às 6h da manhã. E como é cedo, ela sempre está enrolada em uma toalha, pronta para se vestir, exibindo partes de seu corpo sem muitas formas. Não consegui entender pra onde vai, ou que tipo de trabalho realiza.

A tarde não há movimento, eu saio para, de novo, meu cachorro lindo aliviar o acumulado durante a manhã. Parece-me mesmo uma casa triste, até a porta mal decorada é fechada. Fechada, não me dá notícias do que pode estar acontecendo dentro daquela casinha tão singela, mal decorada, móveis velhos, televisão de tubo, cadeira com papelão, já que a almofada do assento não existe mais e parecia confortável. E mesmo com tudo isso, a casinha é pequena demais para caber todo aquele sorriso de todas as manhãs.

A noite o repertório muda um pouquinho, muitas vezes a televisão está ligada, na mesma altura da música, acho que ele não escuta direito. Deve ser a idade. Eu saio de novo para Fidel aliviar o acumulado da tarde.

Aí a porta está de novo aberta, para anunciar que ELA chegou. Chegou de não sei onde. Não sei como, nem porque, só sei que ELA voltou e volta todas as noites. Eu prefiro acreditar que ela volte para embalar meu passeio com o Fidel, converso com ele sobre o que observo e ele também – observa é claro. Passo tão rápido pela casinha, mas consigo ter tantas impressões, às vezes boas, às vezes esquisitas, nunca ruins.

De vez em quando eles tentam se encaixar no sofá de um lugar e meio, outra ela deita no colo esperando cafuné, algumas vezes ele tira o esmalte do pé dela enquanto ela atentamente olha pra televisão. E algumas, que parecem as noites mais divertidas, eles tomam cerveja em latinhas, de marcas que eu não conheço e deixam o William Bonner falando para a parede mal pintada e o sofá vazio. O famoso “boa noite” do apresentador parece diferente, com aquele sorrisinho de canto de boca, animado com a alegria do casal. Será mesmo casal? Me parece. Ele silencia a solidão DELA, ELA preenche o vazio que parece existir nele. Quando ELA não está, a porta fica fechada, ou entreaberta, silêncio sepulcral e cara amarrada.

Eu não sei o nome do casal, e prefiro não saber, não sei a profissão, a origem, as angústias, os medos, as alegrias e os motivos dos sorrisos. Prefiro não saber. Prefiro acreditar na verdade que criei: Com ELA, os dois serão felizes para sempre. Ele é aposentado, nunca foi casado, tão pouco tem filhos, e encontrou NELA, uma razão para sorrir de novo, ela ainda não conseguiu sua aposentaria e encontra nele um teto, um alento. E sorri sempre que coloca o shortinho curtíssimo mostrando as “pernas nem um pouco torneadas pelas ladeiras” do morro e a parte de cima de um biquíni mais velho que o senhor que a acompanha. Ele parece mais feliz ainda com a companhia dela no modelito menos fashion que pode existir.

Eu e Fidel temos nossos passeios matinais e noturnos mais interessantes, temos o quê observar, temos nossas impressões. Criamos novas versões para a história que parece tão bacana, mesmo tendo cara de solidão. O quarteto se completa todas as manhãs e noites, já que as tardes a gente não se encontra. E sempre embalados por “ela sai de saia e bicicletinha...”

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