Contra o mau olhado eu carrego o meu patuá
Eu poderia começar contando as inúmeras histórias emocionantes dele. Poderia citar diversas situações que comoveriam. Também seria possível explicar quantos anos ele carregou a família Albuquerque em muitas ocasiões. Existem ainda aquelas histórias engraçadas, chocantes e até mesmo aterrorizantes. Mas a melhor forma mesmo é contar sobre ELE. Um monte de caracteres para descrever a super máquina que ele foi, que tenta ser hoje e ainda promete ser. Então podemos começar de novo:
Contra o mau olhado eu carrego o meu patuá
“Acredito! Acredito ser o mais valente”... Ele realmente acredita nisso, quando “se levanta” todos os dias a 7h da matina para trabalhar. Mas, um Del Rey Ghia, 1989, não poderia pensar diferente. Ele foi robusto, imponente, chique e um “carrão de tirar o fôlego”. Entendam, ele foi. E agora precisa carregar seu patuá, na verdade não para evitar o mau olhado e sim para segurar o parachoque. A cena mais instigante para quem já foi um super carro. Para quem já desceu a Rua Augusta a 120 por hora. Ok, nunca desceu a rua Augusta, mas arrasava quando desfilava pelas ruas da capital do País.
Alvo de colecionadores de carro O Del Rey Ghia 1989 ainda consegue tirar o fôlego de alguns apaixonados. Tirar o fôlego mesmo, já que os vidros não abrem direito, e o ar condicionado não funciona mais. Ele era chique demais há 20 anos. Ar condicionado, direção hidráulica, vidros elétricos, combustível gasolina, diversos opcionais. Ele saiu mais caro por TUDO isso. Hoje, vejo gente vendendo esse carrão por apenas três míseros mil reais.
“E agora, José?”, a água acabou, a luz de freio queimou, o ar quebrou, o vidro não fechou, o carro não pegou. Ele agora deixa duas mulheres indefesas na mão, a proprietária dele, a minha mãe, e eu. Ah e agora ele também não anda mais robusto pelas ruas da capital do País. “E agora, José?”
Agora, em 2009, depois de 20 anos que saiu de uma concessionária FORD, o azul não é mais tão azul. O azul não é lindo como costumava ser. Na época podia ser comparado ao céu de “Brasília, traços do arquiteto, gosto tanto de você”. Agora, nem os vidros colaboram para vermos o céu de Brasília, esse mesmo que não mudou como o Del Rey, e continua sendo o “Céu de Brasília, traços do arquiteto”. Os vidros quase não abrem e se abrem, não fecham sem uma forcinha humana e divina também, é claro.
Já dá pra notar que ele não é mais o mesmo, e olha que não contei sobre as infindáveis vezes que foi parar na oficina. Uma hora é pane na parte elétrica, outra é o motor, muitas vezes uma mangueira rasgada, outras tantas nem o mecânico mais experiente saber dizer o que é. Imaginem, o carro quebra às 20h49 de uma terça-feira, a cidade deserta, e ele simplesmente para sem motivo aparente e não dá sinal de vida. Não tem pra onde correr, a solução? Esperar amanhecer, para levá-lo ao “médico”, e para ouvir desse mesmo médico que o analisou tantas vezes, que agora o problema está em outro lugar. Eu me esqueci de quantos lugares ele já deu problema.
Ok. Dêem um desconto, ele é velhinho. Um carro é como um cachorro, 20 anos é muito tempo de vida. Os dentes já não aguentam mastigar, as patas já não correm como antigamente, a cabeça não pensa tão rápido como costumava, e não acompanha o corpo com a mesma agilidade, os olhos já não enxergam tão bem e todas as doenças começam a aparecer. Mas, como todo dono de cachorro, existem aqueles que são apaixonados por seus “bebês” e fazem de tudo para evitar a morte trágica e precoce. Parece dramático, mas é verdade. É por isso que recorremos ao Lata velha. Não o chamem de lata velha, ele é sentimental.
A gente acredita que ele ainda possa andar robusto e chique pelas ruas da capital. Mas para isso precisamos recorrer ao médico mais experiente da categoria. Quem sabe ele pode até descer a rua Augusta a 120 por hora (km/h).
E o mais bonito de toda essa história é a paixão entre a proprietária, vulgo minha mãe, e o tal cachorrão. É paixão de verdade. Ela não consegue se desfazer do tal “animal”. Eu, Ana Larissa Albuquerque, já tentei por várias vezes vendê-lo (até pelos mesmos três míseros mil reais), já fiz ela assinar uma procuração me dando total direito de fazer o que quiser com o carro, o Del Rey Ghia 1989. Mas me falta coragem, para tirar do seio familiar uma peça tão rara, quase uma relíquia. Por isso ele merece uma recauchutada. De repente, quem sabe, se ele passar pelas mãos dos profissionais/médicos do Lata Velha volte a ser aquele carrão de 1989 e tire o fôlego não só dos que andam nele, mas dos que o olham, o admiram.
Conto com vocês para devolver a paixão de viver ao Del Rey Ghia 1989.
Na verdade não me apresentei, não é mesmo?! Antes de terminar é preciso fazê-lo. Sou Ana Larissa Albuquerque Viana, tenho 27 anos, moro com a minha mãe, Rita de Cássia Albuquerque Viana, dona do Del Rey Ghia 1989. A paixão foi à primeira vista. E o carro nos acompanha desde 1990. Às vezes nos deixa na mão, mas quebra o galho em muitas horas. A família não quer trocá-lo por um carro zero, aquele mesmo sem graça e sem nenhuma história pra contar.
EU QUERO MESMO MANDAR PARA O PROGRAMA DO LUCIANO HUCK... hihihihihihihi
Sem mais... =)
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